Potências Negras avança em nova edição com foco na autonomia e na formação de lideranças

Coordenadora técnica Lilian Conceição da Silva detalha os aprendizados da primeira etapa e as estratégias que orientam a capacitação para elaboração de projetos e acesso a recursos
Em sua segunda edição, o Programa Potências Negras, iniciativa da Frente Negra Gaúcha, amplia seu campo de atuação ao incorporar, de forma mais direta, a formação técnica de lideranças periféricas para a elaboração de projetos sociais e o acesso a recursos. Após mobilizar mais de 300 participantes na etapa inaugural, o programa consolida uma metodologia baseada em pedagogia social afrocentrada e, agora, aprofunda seu compromisso com a autonomia financeira e o fortalecimento comunitário.
Nesta entrevista à jornalista Silvia Abreu, a coordenadora técnica Lilian Conceição da Silva, doutora em Teologia com Pós-doutorado em Educação, Cultura e Identidades, reflete sobre os aprendizados da primeira edição, detalha as novidades desta nova fase e apresenta os caminhos pedagógicos que orientam a formação, com ênfase na instrumentalização de lideranças negras e na valorização de suas trajetórias nos territórios.
Silvia: O programa Potências Negras chega à sua segunda edição. Que balanço tu fazes da primeira etapa e quais aprendizados orientam esta nova fase?
Lilian: A etapa inaugural do Programa Potências Negras consolidou uma tecnologia de Pedagogia Social afrocentrada, estruturada por uma governança intelectual negra e rigor técnico em Direitos Humanos; desde a contratação do coordenador pedagógico à seleção da equipe de facilitadoras – mulheres negras, profissionais qualificadas e experientes. Isso resultou na produção de material autoral do Programa que embasou a realização das oficinas de Letramento Racial, Consciência Histórica e Representatividade Negra.
O programa mobilizou 321 lideranças, alcançando uma taxa de 68% de aproveitamento entre as e os participantes ativos, o que valida a eficácia e o engajamento da metodologia proposta.
Silvia: Quais são as principais novidades desta segunda edição do projeto? Há mudanças na metodologia, nas atividades ou no formato das ações formativas?
Lilian: No diálogo da Frente Negra Gaúcha com lideranças negras nos vários territórios identificamos a urgência de instrumentalização técnica para a autonomia financeira, garantindo que o acesso a mecanismos de fomento seja um exercício pleno de Direitos Humanos e cidadania.
Dando continuidade ao modelo de 2025, que contou com turmas online, esta fase prioriza a territorialidade presencial, sem abdicar da acessibilidade digital para ampliar o alcance e a democratização do conhecimento.
Silvia: Qual é o foco curatorial e pedagógico que orienta esta nova edição? Que temas ou perspectivas ganham maior destaque agora?
Lilian: Na 2ª edição do Programa Potências Negras focaremos na identificação, na valorização e na instrumentalização de lideranças para a elaboração de projetos sociais e captação de recursos que possam contribuir para o fortalecimento de suas comunidades.
A elaboração de projetos, já mencionada, é o tema principal dessa 2ª edição, que também abordará os temas: protagonismo de lideranças negras no mundo do trabalho, bem como perfis comportamentais, propósito e carreira profissionais.
Silvia: De que maneira o projeto pretende aprofundar o debate sobre potências negras no campo da cultura, da educação e da produção de conhecimento?
Lilian: Considerando a ênfase maior na elaboração de projetos para captação de recursos, a tríade cultura-educação-produção de conhecimento são os principais campos de atuação do nosso Projeto, a partir dos quais serão elaboradas propostas de ações que estimulem a valorização das potências negras atuantes nessas áreas, em cada território.
Silvia: Como a proposta pedagógica do projeto dialoga com ancestralidade, território e experiências contemporâneas das pessoas negras?
Lilian: A ancestralidade é como um fio invisível que une o passado, o presente e o futuro. A proposta pedagógica afrocentrada e contracolonial do Programa Potências Negras se espelha no aprendizado ancestral do Sankofa, ideograma adinkra representado por um pássaro que tem os pés firmados no presente, com o pescoço voltado para o passado, carregando no bico um ovo que representa o futuro.
Assim, o Potências Negras faz o mesmo exercício: com os pés presentes hoje nos territórios, se volta ao passado para buscar a memória das tecnologias forjadas por nossa ancestralidade, e assim instrumentaliza lideranças para melhor aparelhar as comunidades no futuro.
Silvia: Que tipo de formação e experiências os participantes encontrarão nesta segunda edição? O que diferencia essa jornada formativa? O que torna essa jornada singular?
Lilian: A singularidade do Programa Potências Negras tem como base os valores da Frente Negra Gaúcha, amparados na justiça, na igualdade de direitos, na solidariedade, na colaboração, na transparência, na participação democrática e na representação política. Ou seja, a jornada formativa proposta está alicerçada nesses valores e busca promover e estimular que as pessoas participantes se percebam como potências que, em rede e colaboração, podem projetar e realizar ações conjuntas de afirmação da dignidade humana plena.
Silvia: O projeto envolve convidados, facilitadores ou parcerias novas nesta etapa? Como essas presenças ampliam o alcance e a diversidade de vozes do projeto?
Lilian: A 2ª edição do Programa Potências Negras tem buscado estabelecer novas parcerias, em territórios não alcançados pela 1ª edição, ao mesmo tempo que, embora tenha como público prioritário lideranças negras, reconhecemos que a exclusão dos sistemas de captação é um marcador das periferias; por isso, adotamos uma perspectiva interseccional que fortalece a pluralidade étnico-racial e social do Rio Grande do Sul.
A diversidade de vozes na luta antirracista é elemento crucial para o enfrentamento ao racismo. De modo que a ênfase interseccional de raça, classe, gênero, sexualidade e anticapacitismo, é o critério primeiro na elaboração de projetos a partir do nosso Programa.
Silvia: Que impactos tu esperas provocar nos participantes e nas comunidades a partir desta nova edição?
Lilian: Com a 2ª edição do Potências Negras desejamos responder à necessidade de instrumentalização de lideranças na compreensão dos processos de elaboração de projetos sociais e na captação de recursos, visando impactar à realidade de suas comunidades, sensibilizando e estimulando lideranças locais a continuarem o processo formativo através da busca de outras formações complementares e/ou formações mais específicas que contribuam para a mudança das realidades pessoal e comunitária.
Silvia: Em um contexto social e cultural ainda marcado por desigualdades raciais, qual é a importância de iniciativas como o Potências Negras, hoje?
Lilian: A combinação de opressões contra as pessoas negras e indígenas – maioria entre as pessoas empobrecidas –, dentre as quais as mulheres negras e indígenas são as mais afetadas –, empurram tais populações a viverem em condições de maior vulnerabilidade social.
Diante do sistema capitalista, que ao mesmo tempo gera e se retroalimenta das desigualdades, a promoção de processos educativos que instrumentalizem lideranças a enxergarem os principais problemas de sua comunidade, a aprenderem a elaborar projetos sociais que busquem contribuir para a resolução de alguns desses problemas, a conhecerem caminhos de acesso a editais de fomento, a aprenderem a firmar parcerias, a conhecerem e a acessarem outras possibilidades de formação qualificada e fortalecerem-se a si mesmas e às suas comunidades, constitui-se como um processo de resistência singular, refletindo a missão da Frente Negra Gaúcha: “Desenvolver comunidades e periferias, em seus aspectos sociais e econômicos, para a diminuição da desigualdade social e étnica”.
Silvia: Que convite tu farias para quem está pensando em participar ou acompanhar esta segunda edição do projeto?
Lilian: Integrar o corpo discente do Programa é uma oportunidade de autopercepção como potência e reconhecimento mútuo entre potências. E o caminho para avançar na luta antirracista e na transformação dos territórios ocorre por meio do fortalecimento coletivo e do aquilombamento, tal como aprendemos de nossa ancestralidade africana: “Se quer ir rápido, vá só. Se quer ir longe, vá acompanhado”.
O Programa Potências Negras é um convite da Frente Negra Gaúcha para que lideranças negras se afirmem e se fortaleçam juntas, sonhando e forjando condições de resistência coletiva, a partir de nossas potencialidades, sob inspiração do que nos ensina outro provérbio africano: “As pegadas das pessoas que caminharam juntas nunca são apagadas”.
Olho jornalístico
“O acesso a mecanismos de fomento precisa ser um exercício pleno de Direitos Humanos e cidadania”










